segunda-feira, 26 de maio de 2008

Diamantes


“-Escreveu-me?
- Sempre que pude. Se nunca as recebeu passo a resumir: Rezo para que esteja bem. Rezo para que me tenha no pensamento. Você é tudo o que me impediu de cair para um sítio escuro.
-Como consegui impedi-lo? Mal nos conhecemos. Foram apenas uns momentos.
- Um milhão de momentos. São como um saco cheio de diamantes. Não importa se são reais ou coisas que inventei. A forma do seu pescoço. Isso é real. A forma como a senti nas mãos quando a puxei para mim. Aquele beijo…que beijei todos os dias da minha caminhada.
-Todos os dias estive à espera. Ansiando ver a sua cara.”

Diálogo entre Inman(Jude Law) e Ada( Nicole Kidman) - Cold Mountain

Cold Mountain retrata a história de um soldado da guerra civil americana que em nome do amor deserta atravessando um país devastado, violento e desolador. As recordações dos momentos que teve com a sua amada são verdadeiras porções de força e incentivo que o permite aguentar e sobreviver aos horrores da guerra.
Este filme fez-me pensar precisamente nos pequenos momentos mágicos que temos ao longo da vida. Existem momentos assim. Poderá ser duas mãos que se entrelaçam pela primeira vez, os primeiros passos de um filho, um postal inesperado recebido de um amigo distante, uma música tocada num concerto em perfeita sintonia com as nossas emoções, um abraço que une dois corações que se juntam e que batem em conjunto, uma história contada debaixo de um céu de estrelas, um beijo que acende a vida, um mergulho num oceano cristalino, a descoberta de uma nova amizade… Momentos por vezes de apenas alguns segundos mas que ficam de tal forma gravados no nosso coração que os revisitamos toda a vida fazendo surgir sorrisos nos nossos lábios sempre que isso acontece.
Cada pessoa guardará no cofre do seu coração estes pequenos diamantes. Diamantes que por serem diamantes, durarão para sempre.

domingo, 25 de maio de 2008

Crescer

Por vezes pensamos conhecer bem o nosso universo interior, julgamos saber quais são os seus limites e fronteiras, controlamos as estrelas dos nossos sentimentos assim como as órbitas dos planetas das emoções. Por momentos quase que podemos assegurar ter algumas certezas inabaláveis.
Eis que, de forma inesperada, o universo dá uma cambalhota travessa e, ficando de pernas no ar, baralha todos os seus elementos. De um dia para o outro ficamos com as mãos cheias de estrelas, nebulosas, planetas, luas, cometas e meteoros. Olhamos para o céu vazio e queremos recordar onde estava cada um destes corpos celestes, queremos lembrar como brilhava aquela estrela antes ou em que sentido rodava determinado planeta mas por estranho que pareça não conseguimos…
Então, pouco a pouco, criamos uma nova ordem. Peça a peça vamos construindo um novo universo. Observamos que conseguimos colocar alguns elementos no lugar onde estavam anteriormente mas que existem outros que colocamos agora em posições completamente diferentes.
Reparamos então que as estrelas brilham agora com belas cores nunca antes vistas e começamos a amar o novo universo.
Reparamos que o universo é maior do que pensávamos, que o universo cresceu, que nós crescemos…

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Eros e Psique

Nightmare before Christmas (1993) - Henry Selick/Tim Burton


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa - Eros e Psique

terça-feira, 29 de abril de 2008

Beja - Abril 2008

"Ai eu já pensei,
Mandar pintar o céu em tons de azul,
Pra ser original
Só depois notei,
Que azul já ele é houve alguém,
Que teve ideia igual..."
O Anzol - Rádio Macau

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Saramago brevemente nas salas de cinema

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro dos Conselhos
(citação presente na primeira página do livro Ensaio sobre a Cegueira)

Fernando Meirelles (realizador de filmes como o Fiel Jardineiro e Cidade de Deus), adaptou para cinema a obra de José Saramago vencedora de um Nobel (Ensaio Sobre a Cegueira). Blindness é o título do filme que promete tornar-se num dos melhores do ano quer seja pela história, pelo realizador ou pelo elenco (Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Sandra Oh e Gael García Bernal ). Ainda falta algum tempo até à estreia mas já há um trailer( http://www.youtube.com/watch?v=r9S2KwhKGO8) onde não deixa de ser uma honra poder ver algo como "Based on the novel by Nobel Prize Winner José Saramago"…

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Estórias da Avó

Confesso que tinha dúvidas se o passar dos anos não teriam feito desaparecer um pouco estas estórias ou então que as personagens das telenovelas que a minha avó segue com grande assiduidade se tivessem infiltrado nestes contos e, de certa forma, os tivessem modificado. Lembrava-me de algumas frases, de personagens, mas precisava de ouvir de novo as estórias para poder perceber as peças que me faltavam para ligar cada fragmento solto. Reparei então que a essência de cada estória continua lá. As frases e as personagens podem-se ter alterado um pouco mas o entusiasmo com que ela é contada mantêm-se.
“Como é que é aquela estória da mão?” - Esta é a "palavra passe" para a minha avó começar a desenrolar o novelo das estórias. Aqui fica esta versão baseada num desses contos, o conto das mãos.
Era uma vez uma família muito pobre. Esta família era tão pobre que mal conseguia ter dinheiro para comprar as suas refeições diárias. Alimentam-se quase sempre de sopas e podem pensar: "Então a sopa até é um prato com muita vitamina!". Pois é, mas esta sopa só tinha batata e cenoura, aliás, a sopa era sempre feita da mesma batata e da mesma cenoura durante todo o mês. Ou seja, quando chegava ao fim do mês as únicas vitaminas que comiam era a da ferrugem das colheres.
Certa noite a família encontrava-se reunida a jantar um carapau assado no forno. O pai fazia a divisão das doses: cabeça e barbatanas para o pai, lado direito para a filha, lado esquerdo para o filho, barriga e rabo do carapau para a mãe e espinhas para o gato.
- Comam devagar para não se engasgarem! – diz a mãe.
-Mastiga de boca fechada Carlos António! – ordenava o pai
Truz, truz. Batem à porta.
- Quem será marido? A uma hora destas…
- Não sei, espero que não venha para jantar…Deixa que o pai tira as espinhas, Micaela Carina, que estou já estou mesmo a ver que ficas com uma espinha entalada na goela.
Levanta-se a esposa e vai tentar ver quem é por entre os espacinhos das tábuas (material de que era feito aquela singela moradia). Não vê ninguém…
Truz, truz. Outra vez a porta.
- Marido, vai lá tu ver! Que eu não vejo ninguém!
Levanta-se o marido desta vez. Abre a porta. Encontra do outro lado um velho, de óculos escuros, anéis de ouro em todos os dedos, camisa havaiana, calções de Lycra, uma bengala e uma mochila em forma de urso às costas.
- Boa noite! Ouvi dizer que nesta casa têm-se andando com um certo vazio de estômago! Pois trago-lhe boas notícias para vos dar: expiraram-se os tempos de roer ossinhos, acabaram-se as bocas a salivar quando só os olhos comem os Cornetos que estão nos cartazes de gelados, trago aqui a solução para todos os seus problemas. Não , não é um Vaporetto Titano, é muito melhor que isso.
Despejou a mochila na mesa daquela família: várias caixas em madeira de diferentes tamanhos, um chupa-chupa, bolachas para diabéticos e um corta unhas. Guardou tudo de novo, menos as caixas.
- Ora aqui está! – anunciou o senhor dos anéis.
Com cuidado abriu cada uma das caixas. Enquanto a família olhava estupefacta e incrédula.
-Mas isso são….- balbuciou a mulher.
-Sim ! É mesmo isso que está a ver! Isto são mãos!!! - confirmou de novo o senhor das bijutarias.
E realmente para espanto de todos , aquilo eram mãos. Mãos de diversos tamanhos.
- Tudo o que têm de fazer é escolher uma das mãos, levá-la para o centro da mesa e dizer: Põem-te mesa! – ensinou o ancião.
- Paiiii!! Eu não quero comer mões!!! – avisou a pequena Micaela .
- Fica descansada minha filha que isto não é para comer!! E diz-se mãos e não mões…
- O teu pai tem razão, isto não é para comer, mas escolhe uma e faz como eu te disse e verás o que acontece .- disse o velho apontando para as mãos.
Então a menina, um pouco desconfiada, aproximou-se e escolheu a mão mais pequenina que ali havia. Levou-a para o centro da mesa e disse as palavras do velho:
- Põem-te mesa!!!
De repente aquela mão ganhava vida. E do nada, fazia aparecer deliciosos manjares, alimentos que os olhos , as bocas e os narizes daquela família nunca tinham experimentado nas suas vidas. Em poucos minutos aquela mesa vazia tinha-se enchido de carnes frias e quentes, achigãs, mousse de chocolate, pudins Boca Doce, gelatinas, cerejas, morangos, cabeças de porco, doce da avó, marmelada,…
Os olhos daquela família brilhavam e sem cerimónias sentaram-se à mesa e começaram a comer como se não houvesse amanhã. O velho sorria de satisfação pela alegria daquela família. Arrumou as suas coisas e saiu lentamente sem que ninguém desse pela sua saída. Ninguém notou também que a toda aquela cena assistia, espreitando por uma janela aberta, uma curiosa vizinha. Vizinha essa que se apressou a ir ao encontro do velho assim que ele saiu de casa:
- Senhooor!!! Espere lá que eu também quero uma mão dessas! Ahh!! Que coisa mais rica eu nunca vi uma coisa igual…Olhe mas eu quero ai a maior, que a minha filha vai casar agora no fim-de-semana, e assim já estava o copo de água encaminhado. Parecendo que não é uma ajudinha grande!!- disse a vizinha invejosa.
Não se contentando com a mão pequena levou então a mão maior...
Chegou o dia do casamento. Noivos, convidados, senhor prior, todos sentados à volta de uma mesa vazia.
- Mãezinhaaaa!! O que é isto? Onde está a comida???- disse a noiva, manifestando algum histerismo recalcado.
- Calma minha filha. Espera ai que já vais ver! – disse a mãe confiante.
Então disse as palavras mágicas. Fez-se um silêncio. A mão ganhou vida . De repente, em vez de fazer aparecer alimentos, a mão deu início à maior distribuição de que há história de sopapos, chapadas, galhetas, bofetadas, lambadas, estalos, estaladas, tapa-olhos, enxota-moscas e belinhas. Todos tiveram a mesma dose. D
izem que, ainda hoje o senhor prior não vai aos copos de água dos casamentos que faz, tal não foi o susto do pobre homem.
Olhando para a única comida que os seus olhos viam agora, os dois bifes do lombo que tinha nos olhos para reduzir as equimoses, arrependia-se agora a vizinha de não ter escolhido uma mão mais pequena e aprendia, de uma dura forma, que não se deve ter mais olhos que barriga.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Voar

Beja - Abril 2008

O céu é o lugar onde o ar é gelado
e onde respiras e vives,
onde desejas poder flutuar, sonhar,
correr e brincar todos os dias da tua vida.
O céu existe para todos,
mas só alguns ousam buscá-lo.

Richard Bach - Estranho à Terra

domingo, 9 de março de 2008

Era uma vez...

Numa noite em que o sono teimava em não aparecer surgiu, pé ante pé, a história da fada Amélia...


Era uma vez uma fada. A fada Amélia. Não era uma fada cheia de brilhantes, de vestido cor-de-rosa e com uma varinha luminosa. Não! Esta fada há anos que se vestia sempre da mesma forma: bata com chinelos no Verão e roupão com pantufas no Inverno. A sua varinha de luz mortiça estava gasta e aborrecida de realizar sempre os mesmos truques que consistiam essencialmente em fazer aparecer lasanhas, pizzas, ou qualquer banquete que servisse para saciar os apetites da já rechonchuda fada. Vivia numa casa situada bem no alto de um enorme pinheiro, era uma casinha pequena, tal como pequena era a fada, (de facto a fada não era maior que a chama de uma vela). Passava os dias sentada no seu sofá a beber coca colas, seven ups e sumóis (momento de publicidade), não precisava de se mexer para nada, tudo o que necessitava fazia aparecer com a sua varinha. Queria cortar as unhas, usava a varinha mágica. Queria mudar o canal de televisão, usava a varinha mágica. Queria um roupão novo ou umas pantufas do Noddy, usava a varinha mágica. Queria uma telenovela nova, usava a varinha mágica. Queria afugentar as moscas, usava a varinha mágica. Queria passar uma sopa, usava a varinha mágica (bem, nem sempre, às vezes usava o passe-vite). Assim era a vida desta pouco activa fada.

De facto ela até não era preguiçosa, mas há muito tempo que andava desmotivada, achava que já nada de novo lhe podia acontecer, conhecia todos os recantos do mundo, conhecia todas as emoções e desejos dos humanos e até dos animais. Mas não era isso a causa da sua desmotivação. O que a deixava frustrada, triste e a levava a empanturrar-se de bebidas gaseificadas com corantes e conservantes era o facto de já ninguém acreditar em fadas, já ninguém pedia às fadas para realizar um sonho ou concretizar um desejo (o mesmo se passava com os génios das lâmpadas mágicas, mas esses já andavam a falar com o sindicato). Só conhecia uma jovem que estava sempre a falar em fadas, a pedir coisas às fadas, a cantar às fadas, a falar com as árvores, a dizer que não tinha nada mas tinha tudo, que era rica em sonhos e pobre em ouro... Mas essa jovem foi só o passo que faltava para a fada começar a introduzir na sua dieta: os torresmos, a chanfana à moda das velhas fadas, o entrecosto frito, as sopas de toucinho…Só assim conseguia aliviar as “cargas de nervos” que apanhava com aquela irritante moça.

Mas a fada sabia que a sua própria existência, era uma prova que, algures no mundo deveria haver alguém que ainda acreditava verdadeiramente em fadas, que ainda haveria sonhos à espera de uma ajuda de fada para ser realizados. Sabia que, no dia em que as pessoas deixassem de acreditar, as fadas iriam desaparecer para sempre. E ela sabia que isso ainda não tinha acontecido, pois conhecia outras fadas, falava com elas ao telefone todos os dias, sabia que havia algumas fadas a trabalhar no aeroporto dos pirilampos usando o seu brilho para indicar o local de aterragem, ainda na semana passada tinha recebido uma reunião de fadas em sua casa para uma demonstração de tupperwares. Tinha de haver alguém que ainda acreditasse, simplesmente, ela estava cansada de procurar. Durante muitos anos procurou até que um dia desistiu tal como todas as suas amigas fadas mais cedo ou mais tarde tinham acabado por o fazer.

Certa noite a fada Amélia, sentia-se entediada, agastada, incomodada, chateada e enfadada. Na televisão estava a dar um episódio do CSI repetido pela milésima vez, noutro canal estava a dar O Toca a Ganhar e programas de televendas em todos os restantes canais. Olhou para a varinha mágica e viu que estava a ficar sem bateria, foi até à sala para a pôr a carregar e ao olhar pela janela teve uma ideia:

-Não é tarde nem é cedo é mesmo agora que eu vou sair um bocadinho. Parecendo que não já lá vão uns aninhos que não saio de casa, além disso exagerei no cozido de grão do jantar e um passeio vai ajudar à digestão.

Então a fada Amélia, foi buscar o brilhante vestido das asas, sacudiu-lhe o pó, vestiu e…hoo rasgou-se. Pois, era de esperar, não há vestido que resista a uma alimentação destas. Mas a fada estava determinada e resolvido o contratempo lá foi ela a voar bem alto (bem, não tão alto assim…e não vou dizer porquê, não é muito prudente falar do peso de um fada, principalmente se não quisermos ficar a coaxar).

Percorreu campos. Observou as estrelas e a companheira lua. Ao longe viu uma pequena vila. Decidiu aproximar-se. A vila dormia, não se via ninguém pela rua, dois gatos procuravam a ceia no lixo do único restaurante da vila e os grilos faziam a sua serenata. Uma luz vinda de uma janela despertou a atenção da fada. A curiosa da fada espreitou, não viu ninguém e entrou. Era um pequeno quarto, iluminado com uma luz suave, uma música de embalar tocava e num cantinho ela viu um berço. Aproximou-se devagarinho e… ficou maravilhada, lá dentro um bebé dormia profundamente. O bebé sonhava e, como todas as fadas, a Amélia conseguia ouvir os sonhos dos humanos. Ao ouvir os sonhos daquele bebé a fada sorriu e uma lágrima de alegria surgiu dos seus olhos. A fada percebeu que a certa altura num tempo distante as fadas tinham mostrado aos homens que eles eram capazes de realizar os seus próprios sonhos, que quando esses sonhos se realizam pelo esforço do próprio homem têm um sabor mais doce e que os homens não só não tinham esquecido as fadas como também tinham gravado nos seus corações a gratidão deste ensinamento recebido. Os sonhos e os desejos fariam sempre parte da natureza humana. A dormir, a criança sorriu e ao de leve a fada Amélia deu-lhe um beijinho luminoso.

Nas suas tertúlias de final de tarde para jogar poker, bisca dos nove e burro em pé as amigas da fada Amélia dizem que ela não parece a mesma:

- Agora alinha em todas as nossas excursões para ir às termas, a festas e piqueniques - constata a fada da Fruta.

-Aiiiii…! A moça está óptima! Está d-i-v-i-n-a-l!!! Olha! Vendeu a varinha mágica, empregou-se na Pirilampes Airlines, asseada, amiga de se arranjar ao espelho durante horas…Digo-te sinceramente, se não soubesse não a reconheceria – diz a fada Castelo Branco

-Pois foi, pois foi! Inscreveu-se na clínica Fadona e já perdeu dez quilos! Está uma autêntica modelo. Agora só come é tofu e beringelas recheadas com tomate. Diz que vai casar daqui a três meses com o grilo Altifalante… - finaliza a fada dos Molotofes.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A família deliciosamente disfuncional do filme Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos


"O nosso lar é tudo o que conhecemos e amamos. Quando estamos juntos, estamos em casa. Um lar não é um sítio. Não creio que o conhecido e o amado tenham tecto, ou que estejam ligados por pregos, vigas e cimento. O nosso lar é uma determinada ordem que nos é querida, na qual não há perigo de sermos quem somos."

Richard Bach - Uma Aventura do Espírito

sábado, 1 de março de 2008

Quando as palavras são armas...

Nos meus cadernos de aluno
Na minha carteira, e nas árvores
Na areia e na neve
Escrevo o teu nome

Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra, sangue, papel e cinza
Escrevo o teu nome

Sobre as imagens douradas
E nas armas dos guerreiros

Ou na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

E pelo poder da palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Nasci para te chamar
Liberdade.

Paul Éluard - pequeno excerto do poema "Une Seule Pensée" (Um Único Pensamento). O poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa em guerra, quando a terrivél ameaça nazi tentava esmagar a liberdade, em 1943.
Imagem -O beijo da Time Square. O beijo de despedida da Guerra fotografado por Victor Jorgensen na Times Square em 14 de Agosto de 1945, no final da II guerra mundial. Um soldado da marinha norte-americana beija apaixonadamente uma enfermeira. Segundo se conta, eram perfeitos estranhos que haviam acabado de encontrar-se.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Beja- Fevereiro 2008

"Mais do que um país
Que a uma família ou geração
Mais do que a um passado
Que a uma história ou tradição
Tu pertences a ti
Não és de ninguém ...
Mais do que a um patrão
Que a uma rotina ou profissão
Mais do que a um partido
Que a uma equipa ou religião
Tu pertences a ti
Não és de ninguém ...
Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem ...
Quando alguém nasce, nasce selvagem
Não é de ninguém"
Delfins - Nasce selvagem
(M. Angelo / F. Cunha)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Magia do Cinema

Histórias contadas através de imagens e sons, emoções despertadas por músicas e cores misturadas e projectadas numa tela viva, histórias reais, histórias imaginárias, retratos daquilo que somos, daquilo que podemos ser, viagens a destinos longínquos, ao passado, ao futuro, à mente, heróis que despertam heróis, sonhos por alguém sonhados que fazem nascer outros sonhos e outros contos.
A 28 de Dezembro de 1895 dois irmãos apresentavam no Grand Café do Boulevard des Capucines em Paris, perante uma plateia maravilhada, as primeiras imagens em movimento, de algo tão banal como a saída dos operários de uma fábrica. Assistia-se então ao nascimento do cinema.
Se o desejo imenso do ser humano em contar histórias fez nascer o cinema, então a paixão por as escutar, fê-lo crescer e evoluir até aos dias de hoje.
(Imagem -Toto (Salvatore Cascio) do filme Cinema Paraíso)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Oscar 2008

Falta menos de uma semana para os Óscares. Aqui fica um belo vídeo que homenageia os nomeados deste ano.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Dois mestres do humor falam de amor...

"Eu tive sorte. Quando conheci a mulher dos meus sonhos, soube-o de imediato. Vi-a, e fiquei logo incapaz de falar. A minha garganta ficou bloqueada, o meu estômago dava nós, eu estava todo suado, pegajoso e enjoado. Tinha aprendido, anos antes, que sentires-te enjoado frequentemente significa que estás apaixonado. (Outras vezes, apenas significa que comeste amêijoas estragadas, e deves aprender a distinguir entre os dois.)
Mas eu sabia que era isso. E quanto mais tempo passávamos juntos, mais convencido eu ficava- nós encaixamos."
Paul Reiser - Criador, actor da série Mad About You(série que passava há uns anos nas noites da TVI sob o nome de Doido Por Ti) e autor do livro com o mesmo nome.

"O bonito na mulher que amamos, ao ponto de nos doer a barriga, não é o que todos vêem. É o facto de ela ter birra de sono, de sussurrar em eslovaco a letra daquela música americana, e cantar o refrão mais alto, de demorar 40 minutos todos os dias para se vestir e dizer "hoje nada me fica bem". Todos esses pequenos defeitos, só nós os conhecemos. Todos esses defeitos são, analisando a conta-gotas sentimentais, preciosas qualidades."
Bruno Nogueira - humorista, actor e apresentador de televisão

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Vida

Claire (Kirsten Dunst) e Drew (Orlando Bloom) - Elizabethtown

"Um dos lemas dos Serviços Especiais da Força Aérea é: "Aqueles que arriscam, vencem.". Um simples pé de videira consegue vingar através do cimento. O salmão do Pacífico luta ferozmente na sua tentativa de percorrer quilómetros rio acima contra a corrente, com um único objectivo, o de acasalar claro está, mas também...a VIDA"
Drew (Orlando Bloom)- Elizabethtown

domingo, 27 de janeiro de 2008

Ouro sobre azul

Moura, Outubro de 2007


"Sentir tudo de todas as
maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a
cada minuto"

Álvaro de Campos- Passagem das Horas

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Esperança

Ouvi esta história há uns anos numa noite de contos realizada na biblioteca de Beja.Não recordo alguns pormenores mas era mais ou menos assim:
Um avô, olhando para as chamas de três velas, começou a contar uma história ao neto:

-Era uma vez três velas assim cintilantes como estas que estás a ver agora. Estas velas eram especiais pois cada uma delas tinha o seu nome: Fé, Amor e Esperança. Elas brilhavam noite e dia sem nunca esgotarem a sua luz. Uma luz que dava volta ao mundo e que tinha o poder de iluminar até o local mais profundo e escuro da terra. Um dia a chama da Fé apagou-se e o mundo ficou ligeiramente mais escuro, assim como ficou a sala agora, depois de eu apagar esta vela.
O menino escutava com toda a atenção.O avô continuou:

- Certa noite, uma brisa atrevida soprou mais forte, então a chama da vela chamada Amor não resistiu e apagou-se também. O mundo ficou um pouco sombrio. Era difícil de conseguir distinguir as cores e as formas, tudo parecia cinzento como naqueles filmes antigos que o avô gosta de ver. Inexplicavelmente até as músicas pareciam cinzentas.

O menino mostrava-se preocupado dirigindo o seu olhar para a vela que ainda restava acesa. Então o avô passou carinhosamente a mão pela cabeça da criança e disse:

-Não te preocupes! Porque enquanto restar a chama da Esperança podemos sempre acender a chama das outras duas velas. E assim as chamas da Fé, Amor e Esperança poderão continuar a iluminar os nossos corações.

E segurando na última vela ainda acesa, o avô reacendeu as outras duas, a sala iluminou-se de novo e os olhos do menino voltaram a brilhar com entusiasmo.

Ver


"O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê."
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Um Feliz 2008


" Um estranho é apenas um amigo que ainda não se conhece."

Margem Simpson - Os Simpsons


Desde pequenos habituamo-nos a ver os estranhos como uma potencial ameaça. Talvez seja algo gravado na natureza do ser humano, algo herdado dos nossos antepassados primitivos quando os estranhos seriam alguém com quem a tribo teria de lutar pelo seu território ou de quem teria de proteger a sua fonte de alimentos. Esta desconfiança face aos estranhos é certamente um mecanismo de defesa da espécie humana. Mas será que se justifica? Apesar de tudo quero acreditar que um estranho tem mais hipóteses de ser alguém amigável do que de ser uma ameaça. Num mundo cada vez mais povoado assiste-se frequentemente ao fenómeno da solidão. Cada vez mais pessoas vivem existências solitárias no meio de uma multidão. Mesmo havendo tantos meios de comunicação, encontram-se pessoas cada vez mais perto e ao mesmo tempo mais distantes, pessoas de grandes cidades inundadas de gente que vivem como se estivessem em ilhas desertas. Faz lembrar aquele anúncio de iogurtes em que as pessoas depois de beberem o iogurte ficavam dentro de uma bolha que as protegia. Um escritor(penso que foi José Saramago) disse um dia algo como: O homem vai à Lua, revela as superfícies de Marte e as profundezas dos oceanos mas falta ainda realizar a grande viagem, a viagem ao coração do próprio homem.

Acredito que existem muitos amigos por ai apenas à distância de uma simples palavra.

Que 2008 seja um excelente Ano para todos nós. E que, mais logo, quando 2007 se despedir e 2008 entrar com os seus doze meses novinhos em folha, ao som do fogo de artifício se junte também o som de muitas daquelas bolhas a rebentar.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Perspectiva

"Um bichinho pequenino, de focinho pontiagudo, caminha muito decidido sobre a página que escrevo, dirigindo-se sem dúvida para algum lugar. Não estaremos nós também a trepar a página de algum caderno cósmico ? E tudo o que nos acontece não fará parte de uma mensagem que poderíamos compreender, se encontrássemos a perspectiva certa ?"
Richard Bach - Nada ao Acaso
Dedico esta postagem ao magnífico blog Perspectiva (e à sua não menos magnífica autora) que de certa forma me inspirou e despertou a paixão pela escrita em blog.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Há muitos, muitos anos...


“Há muitos, muitos anos, numa terra distante e triste, havia uma enorme montanha de rocha negra e agreste. Ao pôr-do-sol no cume dessa montanha, desabrochava todas as noites uma rosa que imortalizava quem a colhesse. Mas ninguém se atrevia a aproximar dela, pois seus espinhos estavam cheios de veneno. Os homens falavam entre si sobre o seu receio da morte e do sofrimento mas nunca da promessa de vida eterna. E todos os dias a rosa murchava incapaz de oferecer a sua dádiva fosse a quem fosse, esquecida e perdida no cume daquela montanha de pedra fria para sempre só até ao fim dos tempos”
História contada por Ofélia (Ivana Baquero), a personagem principal do filme O Labirinto do Fauno realizado por Guillermo del Toro

domingo, 2 de dezembro de 2007

Um segundo no mundo


Num segundo uma idosa olha com saudade o retrato do seu falecido esposo, um soldado decide não disparar, uma recordação surge, uma mão encontra outra, uma mãe ouve o choro do seu filho acabado de nascer, dois olhares cruzam-se e trocam mensagens secretas, um mendigo recebe e dá algo, uma avó abraça com ternura o seu neto, um tesouro é finalmente descoberto, uma recordação aquece o coração, uma toxicodependente decide libertar-se de uma agulha que teimou em entrar constantemente nas suas veias, um pastor divide o almoço com o seu fiel cão, um postal traz notícias de um amigo distante, um míssil não é lançado, dois corpos e duas almas tornam-se um só, um sonho torna-se realidade, uma prisão abre-se, uma ecografia revela o sexo de um bebé, uma vela acende a esperança no coração de alguém, duas vizinhas compartilham um chá de camomila acompanhado de uns biscoitos, dois apaixonados gritam ao mundo o seu amor, é escolhido um presente para uma pessoa especial, uma árvore é iluminada…

Num segundo uma estrela cadente percorre o céu e lembra que é Natal.

sábado, 1 de dezembro de 2007

*Chegou o Natal*

Chegámos ao mês desta festa tão especial. Aqui fica um "cheirinho" de Natal através de pequenos fragmentos de filmes que, de certa forma, comemoram e contam histórias desta época mágica...

FELIZ NATAL

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Estrelas que tocam o chão...


Algures num infantário da vila de Vidigueira um menino fez um desenho curioso. Um desenho que causou grande admiração entre as outras crianças e despertou a curiosidade da própria educadora. A criança tinha desenhado um céu cheio de estrelas mas algumas dessas estrelas estavam tão próximas do chão que chegavam a tocá-lo com os seus pequenos raios.
As outras crianças diziam que o desenho estava mal feito, que as estrelas não estavam no lugar delas e que não podiam estar tão em baixo.
O menino estava confuso e não percebia a razão de toda aquela admiração. Dizia que era assim que ele via as estrelas todas as noites.
Depois de pensar um pouco a educadora entendeu então o menino. Era uma criança de raça cigana e, de facto, à noite quando ela estava no seu acampamento longe das luzes e dos edifícios da vila, as estrelas brilhavam de forma mais intensa, a fina linha do horizonte que delimita o céu e a terra como que se diluía e de forma quase misteriosa desaparecia. O céu e aterra misturavam-se, confundiam-se e por vezes não se sabia bem onde terminava um e começava o outro. Assim havia algumas estrelas que pareciam tocar no chão. Era assim que aquela criança via normalmente as estrelas.
Ofuscados pelas luzes das nossas cidades e ocupados pelas nossas rotinas esquecemo-nos por vezes da forma como as estrelas continuam a brilhar acima de nós e de como elas por vezes parecem tocar a terra.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Escrever...

"Por mais que fujamos, sempre chega aquela hora em que nada mais nos resta senão escrever, escrever e escrever, namorar ideias e emoções. Continuar a escrever. Ter sempre vivo o sonho de escrever.
Não tomar remédio para baixar a febre de escrever.
Escrever para quê? Sobre o quê? De que modo? A que preço? Com todas as forças? Com quais fraquezas?
Esses e aqueles deslimites.
E o desejo vasto de encantar. Quem escreve quer encantar.
Já entendeu que é feiticeiro? Ou fada ou bruxa ou brincante?

Prepare o seu caldeirão de ritmos, sons, sabores, cheiros e substâncias.
Quem quer escrever, escreve. Principalmente, se terminou de ler um livro maravilhoso. Um livro maravilhoso escreve outros livros dentro da gente.
É preciso saber ler esses livros dentro da gente."

Stela Maris de Rezende - Esses livros dentro da gente

domingo, 4 de novembro de 2007

Árvore dos sorrisos

A árvore dos sorrisos tem frutos com as mais diversas formas e sabores. Existem sorrisos quentes e doces, sorrisos frios que nos congelam, sorrisos amarelos, sorrisos que nos embalam suavemente ao som de melodias inesquecíveis, sorrisos pelos quais vale a pena esperar mil e uma noites, sorrisos que aquecem o coração nos dias frios de inverno, sorrisos que ao cair semeiam muitos mais sorrisos, sorrisos que marcam a sua presença, sorrisos que se escondem timidamente por entre as folhas, sorrisos que fazem sorrir, sorrisos que fazem chorar, sorrisos capazes de mover gigantescas montanhas, sorrisos que escondem pequenos segredos, sorrisos com espinhos que ferem os dedos ao tentar descascá-los, sorrisos que iluminam tudo à sua volta, sorrisos que falam sem palavras, sorrisos que encantam qual encantador de serpentes, sorrisos ternos que contam histórias antigas por vezes mil vezes contadas mas sempre com um gosto diferente e maravilhoso, sorrisos bússola que orientam marinheiros nas noites sem luar e sem estrelas, sorrisos com cafeína que nos afugentam o sono e nos fazem sonhar acordados, sorrisos que fortalecem e despertam um herói escondido no coração de alguém, sorrisos que valem por uma eternidade…
Algures no nosso quintal todos temos uma árvore dos sorrisos. Todos já provámos alguns dos seus frutos exóticos.
A árvore dos sorrisos quer-se bem regada todos os dias ao nascer e ao pôr-do-sol...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Sonhar...

Deixou
Na berma da estrada
Um resto de tudo
Um rasto
De tudo o que era seu
E nada lhe dizia
Adeus

E nem olhou
Por cima do ombro
Por cima da vida
Por baixo dos sonhos
Que há muito as incertezas
Perdeu

Atrás de si só terra
Queimada pelo vício
De esperar muito mais de si
Atrás de si só um sinal
Que os homens lhe mostraram "o mundo para ti termina aqui"

Em frente
Tanto mais é longo
O dia
Quanto mais for cega
A falta de paixão
Que se transforma em frio
E dor

Sonhar
Mesmo sem dormir
Mesmo sem ser noite
Mesmo sem ter dias
Mesmo sem sonhar
É como se outra vida
Vier

O coração só se nega
Quando o sonho se entrega
P´ra se desesperar
Por cada desespero um sonho
Por cada sonho uma vontade
De se ressuscitar

Voltou
Por cima de tudo
Desfraldando vida
Cavalgando o sonho
E na berma da estrada
Nem ele se lembra
De si
Por Cima da Vida - Luís Represas

sábado, 20 de outubro de 2007

Era uma vez...

Princesas (sorridentes) desenhadas por crianças do Patronato de Santo António - Beja 2005

Olhos postos no ecrã, uma caneca de leite com chocolate quente numa mão e um papo-seco com fiambre na outra. Aguardava-se o momento mais esperado do dia. O momento que de certa maneira marcava o início das actividades lúdicas, por outras palavras, a brincadeira, que se estendia até à hora do jantar. Depois dos trabalhos de casa feitos, tabuadas, números romanos ou palavras repetidas o número de vezes que o humor do professor ditasse nesse dia, chegava a hora pela qual todos esperavam. Numa altura em que parecia impossível que houvesse um dia canais de televisão só de desenhos animados, em que o DVD ainda não tinha surgido e os vídeos ainda estavam a aparecer timidamente, aquela hora de desenhos animados era visto como um pequeno tesouro, aproveitado até á ultima moeda de ouro. O programa passava num dos dois únicos canais existentes na altura e tinha o título apropriado de “Brinca Brincando”. Houve uma história em particular que ficou na minha memória, uma história que se prolongou por vários episódios e que intrigava a mim e toda aquela trupe de amigos que se juntava com uma assiduidade exemplar. Como quem conta um conto acrescenta um ponto e tendo em conta que não me lembro de alguns pormenores da história tomo a liberdade de preencher os espaços em branco. Então era assim:

Era uma vez uma princesa que vivia num reino longínquo. Esta princesa tinha uma beleza inigualável, mas tinha algo que intrigava todo o reino: nunca sorria, nada a fazia sorrir.
O rei preocupado com a tristeza da sua filha não sabia mais o que fazer. Era um rei poderoso dono de uma riqueza que fazia inveja aos reis dos reinos vizinhos. Certo dia decidiu mandar mensageiros em todas as direcções. Tinham ordens para que avisassem todos os reinos pelos quais passassem que o rei oferecia metade da sua fortuna a quem fizesse sorrir a sua filha. Além disso, quem conseguisse essa proeza poderia casar com a princesa.
Alguns dias depois começaram a chegar príncipes, duques, marqueses, condes e barões. Vinham de terras que nem o próprio rei conhecia. Cada um usava a sua opulência, o seu poder e os seus dons na tentativa de impressionar a princesa. Traziam-lhes os palhaços mais hilariantes do mundo, grupos de bailado, animais exóticos, mostravam-lhe diamantes raros, faziam esculturas e quadros da princesa, exibiam a sua própria beleza desfilando em magníficos cavalos, exibiam grandiosos espectáculos de pirotecnia…
A princesa mantinha o seu ar sereno sem nunca esboçar nem um pequeno sorriso …
O tempo ia passando, e os candidatos para despertar o sorriso da princesa iam sendo cada vez mais escassos. O povo tecia os mais diversos comentários:

- A princesa é uma menina mimada e embirrante!

- Diz que a moça não é muito boa do sentido, caiu do berço quando era pequena…

- É uma princesa muito estúpida, mal empregada coroa.

Desanimado e exausto o rei, sentou-se no seu jardim. Com o olhar firme no chão, viu aparecer uns pés descalços:

- Consigo fazer sorrir a princesa!

O rei olhou para cima e viu de quem era aquelas palavras que despertavam no seu coração uma pequena centelha de esperança. Era um jovem pobre, de roupas gastas pelo uso, que ganhava a vida cuidando daquele jardim, o jardim dos passeios de final de tarde dos reis. No olhar tinha a força inabalável da certeza com que dizia as suas palavras, e isso foi o suficiente para o rei permitir que o jovem tentasse.
Foi chamada a princesa ao jardim. O jovem nunca tinha visto tamanha beleza numa mulher. Por momentos ficou como que hipnotizado olhava para aqueles cabelos negros como a noite, uns olhos que pareciam mudar de cor cada vez que um raio de sol os encontrava, e uns lábios que…continuavam sem sorrir.
- Estou à espera – disse o rei impaciente.

Então o jardineiro retirou uma pequena caixa de madeira do seu bolso entregando-a à princesa. Lentamente a princesa abriu-a. E de lá de dentro saiu o objecto mais inesperado, um par de óculos. A princesa examinou aquilo, intrigada, e colocou-os. Então algo mágico aconteceu, pela primeira vez na sua vida conseguia ver as cores, as formas tudo com uma nitidez que ela julgava não existir. Reparava nas flores daquele jardim, nos pássaros, nos reflexos da água do lago e naturalmente um sorriso começou a sair dos seus lábios, e outro e outro. E desde esse dia a princesa sorria todos os dias.
Como em todos os contos, a princesa casou com o jardineiro, viveram felizes para sempre (pelo menos até prova em contrário, tenho estado atento à imprensa cor de rosa e parece que assim continuam) e tiveram muitos filhos, todos com nomes tão compridos que tinham de ter uma lista telefónica só para eles.
Como todas as histórias esta história também dever ter uma moral. Como em todas as histórias cada um lhe retirará a sua própria moral. Na minha opinião ela mostra como a beleza está essencialmente nos olhos de quem a vê.

Terminada a história as portas da imaginação ficavam abertas e tinha início a brincadeira…

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Viagem

Cabo Espichel - Junho 2007


"Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar."
Viagem - António Gedeão


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Coragem

(Do latim cor, coração.)
Kofi Annan. Foi, entre 1 de janeiro de 1997 e 1 de janeiro de 2007, o sétimo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, tendo sido laureado com o Prémio Nobel da Paz em 2001.


"Ajam de acordo com os vossos ideais; explorem fronteiras onde pessoas mais velhas, sensatas e cautelosas poderão não o fazer.
O fracasso faz parte do sucesso, se não falharmos de vez em quando, é porque provavelmente não nos estamos a esforçar o suficiente.
A coragem não significa falta de medo, porque só os tolos não têm medo, signica fazer coisas, apesar do nosso medo.
Confrontem esses medos, corram riscos por aquilo em que acreditam, porque só assim saberão do que são capazes..."

Kofi Annan


Guardo este texto há tanto tempo que nem me lembro bem quando, nem mesmo, como foi que chegou às minhas mãos. Porque o guardei? Não sei, talvez seja por, de vez em quando, a nossa coragem necessitar de despertar ao som de palavras como estas...

domingo, 30 de setembro de 2007

Evasão



“Estas muralhas têm um estranho efeito. Primeiro odiamo-las. Depois habituamo-nos a elas. Quando passa muito tempo ficamos dependentes delas.”

(Red (Morgan Freeman) – Os Condenados de Shawshank)



Andy Dufresne (Tim Robbins), nos seus primeiros
momentos de liberdade após a fuga


Os Condenados de Shawshank é uma óptima adaptação para cinema da obra de Stephen King com excelentes interpretações de Tim Robbins e Morgan Freeman. Retrata a história de um homem inocente que é injustamente condenado a prisão perpétua. Ao contrário dos outros prisioneiros ele recusa a conformar-se e a deixar de ter esperança de um dia ser livre. De forma serena e discreta ele prepara a sua fuga ao longo de anos surpreendendo todos quando um dia a realiza.
As sociedades criam muralhas, barreiras físicas, muros de preconceitos, verdades que acreditam ser únicas e inquestionáveis. Ao fazê-lo sentem-se seguras, o seu mundo fica então organizado e previsível dando-lhes uma falsa sensação de harmonia. Talvez seja uma forma de as pessoas conseguirem viver menos amedrontadas ou talvez necessitem dessas muralhas para que possam viver sem correr riscos imprevistos.
Mas estranho efeito essas muralhas têm: em vez de proteger, isolam os homens, criam verdadeiras políticas de medo entre as nações, aumentam o fosso entre os ricos e os pobres e as desigualdades sociais, semeiam ódios baseados na raça, sexo ou religião criando ciclos intermináveis de violência.
De vez em quando alguém consegue fazer uma abertura através da muralha e passar para o outro lado. Aí consegue ver o quão ridícula é essa muralha, descobre que não existem verdades absolutas, surgem ideias inovadoras e a humanidade dá um passo em frente na direcção da tolerância, da liberdade e igualdade. Tal como o protagonista desta história levou anos a fazer um buraco através da parede da prisão com um pequeno martelo cinzelador, estas muralhas levam também, algumas delas, muito tempo para serem ultrapassadas requerendo perseverança e luta. Aquele que o consegue fazer será para uns, um herói, para outros um louco. Depende talvez do lado da muralha onde cada um se encontra.
Não sei como cada um pode colaborar para a destruição dessas muralhas. Talvez, se cada um de nós contribuir abrindo nem que seja um pequeno orifício nessas grossas paredes, mesmo algo que apenas permita dar um vislumbre daquilo que se pode esconder lá atrás, quem sabe com o conjunto de todas essas pequenas aberturas as muralhas acabem por se enfraquecer e se desmoronar. Talvez devamos começar por destruir as nossas próprias muralhas pondo à prova os nossos limites, livrando-nos de conformismos e preconceitos, pensando livremente abrindo assim caminhos nunca antes percorridos .

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Ainda o Amor...



"...pois a Vida, com todos os seus momentos
de alegria e de tristeza
e esperança, e medo,
é apenas a oportunidade para aprender o Amor
como o Amor pode ser, como foi, e
como é."

Henry Drummond- The Greatest Thing in the World






quarta-feira, 26 de setembro de 2007

All You Need Is Love - Movie Mix

"Ao toque do amor, qualquer um vira um poeta".
- Platão

Beja recebe emtre 28 a 30 de Setembro a segunda edição do Festival do Amor. Durante três dias o centro histórico da cidade de Mariana Alcoforado abraça e celebra o amor nas suas mais variadas vertentes.

O que é o amor? Acho que poderia encher este blog com definições e explicações e mesmo assim essa pergunta nao ficaria totalmente respondida. A razão talvez seja porque o amor não se explica, sente-se.

O amor sempre foi um dos temas principais da sétima arte, tal como o é na vida real. Aqui fica um pequeno brinde ao amor.

domingo, 23 de setembro de 2007











Livros e pessoas

Conhecer alguém tem algo em comum com a leitura de um livro.

Tudo começa numa prateleira de uma livraria ou biblioteca. Um livro chama o nosso olhar, algo nos faz aproximar dele, segurá-lo, ler o seu título, sentir o cheiro das suas páginas… Lemos o pequeno resumo da história que ele tem para nos dar, abrimos o livro numa página qualquer e espreitamos curiosamente as suas frases. Depois surge aquele momento determinante, o momento em que decidimos se iremos dedicar algum do nosso tempo àquele livro ou se nos basta aquele pequeno fragmento.

Há livros que se lêem num abrir e fechar de olhos, livros maçudos que obrigam a repetidas viagens aos capítulos anteriores, livros pequenos com grandes histórias, livros com capas duras e pesadas (qual armaduras) difíceis de abrir, livros que expressam os mais complexos sentimentos com as mais simples palavras, livros que se tornam verdadeiros companheiros para toda a vida, livros com o poder de gravar frases no nosso coração, livros que relemos vezes sem conta e em cada leitura descobrimos um pequeno detalhe que nunca tínhamos reparado e que nos maravilha ainda mais …Há pessoas assim também.

O que nos leva a escolher um livro e não outro será sempre um mistério, dependerá talvez da nossa história, da história que queremos ouvir ou da história que precisamos ouvir em determinado momento. Conhecer um livro assim como conhecer uma pessoa é sempre uma aventura encantada que nos revela novos mundos e nos faz descobrir também um pouco sobre nós mesmos.




quarta-feira, 19 de setembro de 2007




Opostos


A vida usa aquilo a que chamo “lição dos opostos” para nos lembrar o valor de coisas a que por vezes não damos o devido valor. Assim: usa os momentos de solidão para nos mostrar o quão importante é ter amigos, mostra-nos como não se deve amar para descobrirmos como realmente se ama, dá-nos o silêncio para que possamos saborear melhor cada música e cada voz, por vezes aprisiona com prisões de ferro ou de pensamento para que possamos encontrar os caminhos para a liberdade, oferece-nos o sabor da derrota para que as nossas vitórias sejam comemoradas mais intensamente, mostra-nos como por vezes o doce não é tão doce sem o amargo e que os raios de sol depois de uma tempestade têm um brilho especial.

terça-feira, 11 de setembro de 2007




" A melhor música é aquela que as pessoas fazem quando falam."

Nicolás Bona Ventura - contador de histórias



Como frequentador mais ou menos assíduo das noites de contos realizadas na biblioteca de Beja recomendo vivamente uma visita a mais uma edição das "Palavras Andarilhas", tradicional Encontro de Aprendizes do Contar, a realizar-se de 17 a 23 de Setembro.
Escultura em areia presente no V Festival Internacional de Escultura em Areia FIESA 2007

"Triste de quem vive em casa,
Contente com seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! "


Quinto Império - Mensagem (Fernando Pessoa)